Saturday, November 01, 2008

o branco azul

A sua maior liberdade não estava vinculada a um décimo do que imaginava ela, em seu entendimento sobre si mesma, mas sim, em conseguir preencher, dentro dela o vazio desses dias sem tanta esperança. Queria poder fincar forte os pés no chão e dançar a sinfonia de que sentia falta, aquela que ele sempre tocava antes dela dormir, que transmitia conforto, segurança - paixão, quando sentia que tudo seria como sempre: aquele branco azul da cor da alma dele. Talvez fosse isso então que a preocupava tanto, ter condicionado seus planos para o incerto caminho que lhe sacava a autonomia de esforçar-se profundamente para conquistar seus passos, e ter que obedecer os comandos do tempo com seus bons ou maus ventos para viver então aquilo que se tinha traçado, ou aquilo que se iria viver dali pra frente, já que o tempo lhe resultara inútil. Sabia que a cons-piração dela mesma levava-lhe com a mesma velocidade e freqüência para cima ou para baixo daquela alta colina, de onde avistava de longe o horizonte e o mar azul, quando a vertigem lhe tamblava os pés enquanto sua boca sentia amarga o medo de si mesma, aquele que trazia o desejo de saltar de cabeça. Tentava desligar-se da espera consciente pelo futuro incerto. E ia matando o tempo com sua lembrança maior do amor matinal e sereno que recortava em pedaços e se fazia ser realmente doloroso quando pensava na incerteza das previsões juvenis para os próximos dias. Trazia os ventos do amor no peito, e por esse mesmo motivo pesava a pena de um pássaro que pairava no céu cinzento ou a bala de chumbo que lhe matara. Estava perto de se tornar aquilo que não sabia o que era. E o que lhe apertava ainda mais a alma, era descobrir-se longe dele. Ou ainda, sentir que teria de ser. sem. ele. Enquanto subia a colina, não lhe passava na cabeça o que faria no alto, mesmo sabendo que dali, costumava-se ver o céu inteiro laranja quando baixava o sol por detrás do monte antecipando uma longa noite de estrelas.
Tinha conhecido aquele caminho de terra, guiada sempre pela mão azul do capricórnio e todas as perspectivas que dali se tinha, já fazia parte da sua memória de amor. Todas as aves, todos as nuvens, toda a terra verde que baixava pela encosta, ganhava um fino e transparente manto dourado de cetin, que refletia bem ao longe os passos largos e já cansados da jovem com suas sombras deformadas trazidas pelo pôr-do-sol de setembro. Era a primeira vez que ela forçosamente se aventurava naquela subida. Acreditava que podia buscá-lo desde ali e quem sabe, uma vez no cume, avistar a mistura espetacular das cores, das nuvens brancas, e antes do sol se pôr, baixar correndo pelos galhos verdes, com seu corpo branco nu e apertar-lhe contra o peito e sentir-se seu, sendo.